O que é bilingüismo. (Por Wendel Dantas)

O que é: Esse tipo de estudo ainda é recente. Portanto, há diversas definições a respeito. Prefiro ficar com a de Saunders (1988): "Bilingüismo (...) simplesmente significa possuir duas línguas..."(SAUNDERS, George. Bilingual children: From birth to teens. England: Multilingual Matters, 1988. p. 8 - Citação traduzida do inglês por nós).

Introdução: Existem diversos livros publicados a respeito de ensino bilíngüe. Em alguns deles os autores expressam posição desfavorável, dizendo que reduz a inteligência, que causa problemas articulatórios etc. etc.. Entretanto, prefiro divulgar os casos nos quais as experiências foram bem sucedidas, como é o caso de Werner Leopold (1949), que criou sua filha Hildegard em dois idiomas: inglês e alemão, de Ronjat (1913), que criou seu filho Louis em em alemão e em francês, e de George Saunders, que criou três filhos em alemão e em inglês.

Como funciona: Dentre as experiências acima citadas, a mais fascinante é a de Saunders, pois, nos outros casos, Ronjat e Leopold tirnham, respectivamente, nacionalidade francesa e alemã. Saunders, por sua vez, mesmo não sendo alemão (ele é australiano), criou os filhos nessa língua que aprendeu na faculdade. Isso mostrou ao mundo que não é necessário ser um nativo para que os filhos sejam nativos em uma determinada língua.
Ronjat (1913. In: SAUNDERS (1988. pp. 42-43)) narra que, quando seu filho nasceu, ele recebeu uma carta do lingüista Grammont, na qual o seguinte conselho era dado:
"Não há nada para ensiná-lo. É suficiente que, quando algo for dito a ele, seja dito em uma das línguas à qual você deseja que ele saiba. Mas o importante é que cada língua seja representada por uma pessoa diferente; que você, por exemplo, sempre fale francês com ele, sua mãe alemão. Nunca reverta esses papéis. Deste modo, quando ele começar a falar, ele falará as duas línguas sem ter consciência de fazê-lo e sem ter feito algum esforço especial para aprendê-las." (Traduzido do francês por Saunders)
Essa teoria de Grammont ainda é a mais seguida pelos lingüistas e pais que educaram seus filhos de modo bilíngüe. Tanto Leopold quando Ronjat ou Saunders seguiram esse princípio. Este, por exemplo, falava com seus filhos em alemão desde bebês, enquanto que sua esposa falava com eles em alemão.
Ao fazê-lo, a criança, inconscientemente (e sem saber que os pais estão falando línguas diferentes), passa a estabelecer como regra que o pai fala de um modo e a mãe de outro e, para se comunicar com um ou com outro, deve utilizar a língua correspondente. Saunders menciona que, quando seus filhos eram questionados a respeito do porquê de falarem com o pai em alemão (isso já com uns cinco anos de idade), eles diziam: "porque ele fala comigo assim."
Isso prova que as regras que a criança estabelece na sua mente a esse respeito funcionam. É por isso que Grammont não aconselha que os papéis sejam revertidos.
Entretanto, com sua esposa, Saunders falava em inglês sem problemas. A criança sabe que a regra é somente com ela.

Vantagens: Segundo Saunders (1988), as vantagens do bilingüismo são:
1. Quando adquirido na infância faz com que a criança tenha um sotaque como o de um nativo (p.13). Naturalmente deve-se ter em conta que a criança imitará seu padrão lingüístico, ou seja, seu pai ou sua mãe;
2. Bilingüismo desde a infância faz com que a criança desenvolva superioridade em habilidades em geral (p.14);
3. Saunders observou diversas vezes que o Q.I. de seus filhos ou o grau de aprendizado era superior àquele de crianças monolíngües;
4. A criança vai adquirir, desde a infância, proficiência nas duas línguas, não sendo nessário processo formal de aprendizado;

Desvantagens: Segundo Saunders (1988), as desvantagens do bilingüismo são:
1. Pode retardar a inteligência verbal por até dois anos (p. 15), ou seja, a criança pode demorar mais para falar, pois aprenderá dois sinônimos para cada palavra: um numa língua e outro na outra;
2. Uma língua sempre, de uma forma ou de outra, influencia a outra (p. 56). Isso não necessariamente é ruim. Entretanto, é comum a criança associar algumas regras gramaticais e contextos de uma língua à outra, criando situações de desentendimento. Isso, segundo o autor, se corrige automaticamente com o tempo.
3. Pode ocorrer "triggering", ou seja, mudança de idioma caso não se saiba uma palavra em uma das línguas (p. 89);

Mitos:
1. Saunders (1988) relata que diversas vezes foi abordado por médicos e professores de seus filhos com relação ao bilingüismo deles, dizendo que estava atrapalhando no desenvolvimento da fala, no aprendizado escolar, no desenvolvimento intelectual etc. etc. etc. Como lingüista, entretanto, ele sabia o que estava fazendo e ignorava tais comentários. Segundo ele alguns pais se desesperam quando a criança começa a misturar as duas línguas ou quando demora a falar. Isso, partindo do princípio de que a criança está adquirindo dois idiomas, é normal e trata-se apenas de uma fase que, como qualquer outra, passa. Hoje, adolescentes, os filhos de George Saunders são bilíngües e são pessoas comuns como qualquer outra.
2. Há pessoas que acham que, ao educar seus filhos como bilíngües, eles irão, necessariamente, falar como um nativo, com um sotaque perfeito e estrutura impecável. A verdade não é bem essa e os pais deveriam se adequar à realidade, mirando seus objetivos conforme o que é possível. O fato de uma criança viver em um país no qual se fala, por exemplo, português, fará, naturalmente, que ela tenha mais acesso a essa língua. Assim, ainda que o pai fale com essa criança em inglês, obviamente o português dela será bem melhor.

Conclusão a respeito: Saunders defende em seus livros que há mais vantagens que desvantagens em se educar filhos bilíngues. Inclusive, em sua viagem à Alemanha, suas crianças se comunicaram muito bem. Também penso ser importante mostrar àqueles aos quais desejamos educar como bilíngües um pouco da cultura do país cuja língua se está ensinando, pois língua e cultura estão intimamente ligados. A esse respeito, em certa parte do livro, Saunders lamenta ter dedicado pouco a isso, precisando reforçar esse contato às vésperas da viagem.

Minha experiência: Desde maio/2004, baseado nos experimentos de Leopold, Ronjat e Saunders supracitados, estou educando minha filha Alice em inglês e português. O "input" (aquisição de vocabulário) em inglês é dado por mim, enquanto que minha esposa e meus outros filhos fazem o "input" em português. Diferentemente dos três autores nos quais me baseio, há hoje em dia diversos recursos tecnológicos, como tecla SAP, Internet e DVD que podem fazer com que Alice tenha muito mais contato com pessoas que podem ser para ela padrões lingüísticos do inglês, inclusive pelo fato de ela ser uma menina e necessitar, por esse motivo, de modelos prosódicos femininos.

Sobe