Experimentos

Na literatura científica, dois dos experimentos mais importantes são, sem dúvida, o de Jules Ronjat, que, no início do século XX, narrou a experiência de educar em francês e em alemão o seu filho Louis, e o de Werner Leopold, que, na década de 50, em quatro volumes, narrou a experiência de educar sua filha Hildegard em inglês e em alemão. Abaixo encontra-se um resumo desses dois experimentos:

RONJAT, Jules:
Ronjat, um lingüista francês, era casado com uma alemã. Quando seu filho, Louis, nasceu, em 1908, o lingüista Grammont enviou-lhe um bilhete, oferecendo-lhe um conselho para educar seu filho de forma bilíngüe. O princípio básico do conselho era: "une personne, une langue" (uma pessoa, uma língua), ou seja, caso Ronjat falasse em francês com seu filho e sua esposa falasse em alemão, o menino cresceria entendendo e falando duas línguas.
Ronjat e sua esposa seguiram o conselho à risca e "conscientemente criaram um ambiente de uma língua associada a um dos pais" (George Saunders, 1984:43). Entre si, o casal se comnicava em alemão, a não ser quando houvesse um monolíngue francês como interlocutor.
De qualquer modo, embora houvesse outros métodos, Ronjat convenceu-se de que o sistema "uma língua para cada ente paterno" funcionava de maneira brilhante e parecia exigir muito menos esforço da criança.
O relato do lingüista termina quando Louis tinha cinco anos de idade. Entretanto, até aquele período, segundo seu livro, o desempenho do menino nas duas línguas era impressionante: "ele adquiriu pronúncia nativa nos dois idiomas e havia pouca evidência de influência sintática e de vocabulário de uma língua na outra" (George Saunders, 1988:43). O garoto comunicava-se fluentemente em ambas as línguas.

LEOPOLD, Werner:
Leopold, um lingüista alemão, era casado com uma mulher estadunidense de origem alemã. O casal vivia nos Estados Unidos.
Como sua esposa se comunicava razoavelmente bem em alemão, Leopold, após o casamento, resolveu conversar com ela nesse idioma. Porém, normalmente, a resposta era dada em inglês.
Quando a filha deles, Hipldegard, nasceu, essa prática continuou. Entretanto, exceto quando a mãe estava inserida na conversa, a menina, para alegria do lingüista, lhe respondia em alemão.
Um fator interessante é que Leopold, diferentemente de Ronjat, não seguiu a fórmula de Grammont tão fielmente. Ele falava com Hildegard em inglês quando coleguinhas ou visitantes monolíngues em inglês estavam presentes.
Em sua obra de 1949 (pp. 58-9, 135, 143), Leopold diz que a menina progredira bastante, sendo capaz de se comunicar em ambas as línguas fluentemente, não parecendo haver problemas gramaticais em nenhuma delas.
Em sua obra de 1956, na página 6, o lingüista narra que, aos 20 anos de idade, sua filha Hildegard visitou a Alemanha, onde "as pessoas realmente a entenderam".

Leopold teve uma outra experiência interessante. Sua segunda filha, Karla, nascida quando Hildegard tinha seis anos de idade, foi educada da mesma forma que que esta no que diz respeito ao bilingüismo. Entretanto, principalmente devido ao fato de a mãe estar sempre por perto falando em inglês com ambas (1949b:102) (Hildegard havia dito que falaria em inglês com o bebê mas não conseguiu), Karla, ainda que Leopold falasse em alemão, lhe respondia em inglês. Isso se seguiu por diversos anos, a ponto de o lingüista comentar: "o alemão dela é extremamente limitado..." (1949b:159). De qualquer modo, o experimento não pareceu prejudicá-la na escola e nem no aprendizado do inglês.
Todavia, o mais curioso nesta história é que, aos 19 anos de idade, Karla visitou a Alemanha, onde, surpreendentemente, ocorreu o fato a seguir:
"Nos primeiros poucos diaslá ela não tentou falar alemão porque os pais dela estavam junto e faziam isso por ela. Então ela se soltou e falou alemão fluentemente e com eficácia surpreendente. Levando-se em conta as pouca prática oral, eu não esperava que ela fosse capaz de conversar tão bem..." (1957:6).

Há ainda outros experimentos, inclusive de autores que não consideram eficaz o sistema proposto por Grammont:

ZIERER, Ernesto:
Zierer era um lingüista alemão, mas morava no Peru. Sua esposa era nativa em espanhol e ambos tinham bom conhecimento do idioma do outro.
Quando seu filho nasceu, ele e sua esposa decidiram que educariam o filho de forma bilíngüe, porém de modo diferente da proposta de Grammont, que consiste em "uma língua para cada um dos pais". Essa decisão foi tomada porque eles pensavam que o seguimento dessa regra "causaria perturbações no controle cognitivo e afetivo da criança" e afetaria a relação familiar (conforme sua obra de 1977). Assim, preferiram usar o alemão como a língua oficial da casa.
Preferências à parte, as afirmações de Zierer com relação ao método de Grammont não parecem ter fundamento, conforme observa Saunders (1988:46), uma vez que os dois casos citados no início da página, além do próprio experimento de Saunders terem sido bem-sucedidos.
De qualquer modo, o experimento de Zierer parece ter sido bem-sucedido.

De qualquer modo, não há fórmula exata de como se educar um filho de forma bilíngüe. O fato é que mais pessoas parecem ter seguido o conselho de Grammont a respeito, comprovando sua eficácia.
Há exprimentos nos quais os pais preferem falar na segunda língua em uma parte específica do dia.

Vale saber que, segundo Saunders (1988), não é necessário que os pais sejam lingüistas para que o filho seja educado de forma bilíngüe. Basta aderir a um dos modelos de estudo disponíveis. O simples fato de relatar a ecompanhar esse processo já faz dos pais, de certa forma, cientistas também.

Todos os estudos, todavia, concordam que não traz bons resultados mudar indiscriminadamente de uma língua para a outra. Quando os pais criam determinado comportamento para educar seus filhos de forma bilíngüe, a criança entende esses comportamentos como regra. Desse modo, acredita-se que tal procedimento pode causar algum problema no aprendizado da criança. O próprio grammont, em seu bilhete a Ronjat quando do nascimento de seu filho, recomendou ao lingüista em seu bilhete: "Jamais reverta esses papéis." (Ronjat, 1913).


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